Quando eu era criança eu tinha tarefas. Não me lembro exatamente se eram diárias ou semanais, ou a cada dois dias. Lembro que pra mim eram um fardo, uma afronta, escravidão, pra não dizer abuso de menores. Enquanto todas as meninas estavam no shopping (achava eu) a pobre Michele tinha que ajudar na casa.
Aquilo não era nada que tomasse mais do que 30 minutos do meu dia se eu realmente botasse a preguiça de lado e fizesse logo o que devia ser feito. O que geralmente acontecia é que eu passava horas sofrendo e empurrando pra mais tarde, ou invés de me livrar do problema o quanto antes. Mais ou menos como quando tinha uma prova muito difícil, ou um trabalho daqueles que não sabia nem por onde começar. Ia ficando pra depois, e depois até que nos 45 do segundo tempo eu levantava e terminava tudo correndo do jeito que desse.
Quanto as minhas tarefas – limpar o banheiro, ou varrer a casa, passar pano na cozinha – qualquer argumento que eu tentasse era insuficiente. Lembro que toda vez que eu questionava o porquê de ter que fazer aquilo, a resposta da minha mãe era a mesma:
– Porque você precisa aprender.
E não adiantava dizer que eu ia ser uma adulta rica com todo o dinheiro necessário para pagar alguém que limpasse a casa por mim. A resposta que vinha depois era ainda mais, digamos assim, eficiente:
- Uma boa patroa precisa saber como se faz. Porque assim pode avaliar se estava certo.
Minha mãe também nunca gostou de, após um dia longo e estressante de trabalho, encontrar uma bagunça ao chegar em casa. Louça na pia, farelo pela casa, roupa e sapatos pelo chão. Então aprendi, e não sei se digo que foi de uma maneira muito fácil, que uma casa limpa e organizada é um ambiente relaxante. Pra ser sincera, meu próprio lar não é um exemplo assim como eu não sou sempre organizada.
A questão é que eu ainda não sou uma adulta rica com dinheiro pra pagar alguém que limpe a minha casa. Eu sou paga pra cuidar de duas crianças grandes. E me sinto tão estranha de estar recebendo para não fazer nada (a não ser dar atenção pros meninos) que fico arrumando tudo que vejo pela frente na casa dos meus chefes. Lavo a louça, seco e ponho tudo de volta no lugar. Depois limpo o fogão (mesmo não sendo eu quem sujou) e então seco a pia até que fique brilhando. Ai eu recolho os lixos da cozinha e arrumo o quarto das crianças. E cuida pra recolher a bagunça deles pra que os pais, que pagam meu salário, possam voltar pra casa e não se preocupar com nada disso.
Eu acho que não faço mais do que minha obrigação. Isso me lembra do meu pai, que adora essa frase! Mas meus chefes estão muito felizes comigo. Dizem que as crianças adoram passar as tardes comigo. E confidenciam impressionados pra minha vizinha (que é a ex-mulher do meu chefe):
- Ela é tão amável, dá pra acreditar que ela limpa minha casa?
- Ela é tão amável, dá pra acreditar que ela limpa minha casa?
Só tenho a dizer que tudo isso eu devo a minha mãe. Que se esforçou muito e digo que foi mesmo muito, pra que eu não virasse uma porquinha.