quinta-feira, março 24, 2011

Saudade


Às vezes bate. Não como da primeira vez, quando embarquei no navio, mas bate. Sinto falta de ouvir português, de andar nas ruas sabendo pra onde estou indo, ouvir rádios brasileiras, acompanhar novelas, da comidinha da mamãe todas as noites. Um pouquinho de falta de implicar com meu irmãozinho (que vai ser pequeno pra sempre).
Mas ai eu penso no quanto isso vai acrescentar na minha vida e vejo o que é válido. Afinal, o que eu estaria fazendo no Brasil? Talvez procurando um emprego como jornalista para após algumas semanas me sentir frustrada por não ter ido morar em outro país por uns tempos. E afinal, a grama do vizinho (ou do país nem tão vizinho assim) é sempre mais verdinha.
Estou trabalhando. Larguei o jornalismo e entrei pro ramo da publicidade. Posso dizer que sou auxiliar de assuntos publicitários. Também estou fazendo academia. Muito exercício aeróbico e um pouco de força também. Estudo inglês e ainda sobra um tempo pra fazer turismo por todos os bairros de Sydney. Parece perfeito! Só um jeito de ganhar a vida. Cada dia da semana caminho por um bairro diferente largando panfletos em caixas de correio. Carrego vários quilos de papel. Canso, praguejo, olho pra cima e pergunto: - Porque Deus? Mas no final chego em casa feliz, porque está entrando um dinheiro e me mantenho ocupada.

Os bairros

Sydney parece um mundo inteiro numa cidade só. E não estou falando só pelo tamanho, é imensa, mas pela diversidade cultural. Cada bairro se tornou um gueto, um pedacinho de algum país distante que os imigrantes tentam transformar em lar.
Bondi e Manly são o 27º e 28º estados do Brasil. Têm pessoas falando português nas ruas. E aquele clima de excitação, típico da cultura brasileira. O bairro é alegre, agitado, ensolarado – apesar de ter sempre mais vento que os outros. Os restaurantes são brasileiros, as festas são para brasileiros, música, enfim, é como se todos os estados do Brasil se misturassem num só.
A city é povoada pelos chineses, orientais em geral. Mas é lá que temos China Town, inúmeros restaurantes chineses, japoneses e tudo, mas tudo que você possa precisar, “made in China”, portanto, mais barato. Até frutas e verduras são mais baratas lá. Incrível como Chinês consegue transformar tudo em preços mais acessíveis. E claro, o bairro é decorado com motivos chineses, arcos luzes, gracinha.
E assim temos o bairro dos italianos, dos franceses e dos muçulmanos, não sei exato de qual país. Fui bem longe entregar panfletos na última semana e fiquei impressionada. De repente todos usavam vestidos (não são vestidos claro, qual o nome?) os homens tinham aquela barba grande e todas as mulheres cobriam os cabelos e o corpo todo. Será que o trem me levou tão longe assim que fui parar em outro país? Parece, sempre parece. Porque a cada estação que desço vejo uma Sydney diferente, transformada por culturas tão diversas que só numa viagem de volta ao mundo teríamos a oportunidade de ver. 
E isso que é bacana nesse meu emprego. Todo dia eu me perco num bairro novo e descubro uma cidade nova.


Harbour Bridge. Vi em um programa na televisão que com 200 doláres e muitos equipamentos de segurança é possível caminhar por sobre os arcos da ponte.

Opera House, o orgulho dos australianos. Ainda não entrei, mas acontecem vários espetáculos lá.


As duas são em Paddington. O bairro onde eu queria morar por causa das casa gracinhas que têm.

Passeio no Zoo. $25,00 com excursão da escola. 

sábado, março 12, 2011

E daí que era carnaval?







Aqui temos Mardi Gras. Não é exatamente carnaval, nem de longe tem a mesma graça, o mesmo brilho, mas no fim é a mesma coisa. Quer ver? Carnaval tem um monte de bêbado andando na rua, seguindo uma multidão sem saber pra onde. Mardi Gras também. No carnaval os homens se vestem de mulher e as meninas usam roupas minúsculas. No Mardi Gras também. Carnaval tem desfile de carro alegórico e de passistas. O Mardi Gras também!!!!

Mas, o Mardi Gras não é carnaval, por um simples detalhe. Aqui a festa é gay. As ruas são todas decoradas com as cores do arco-íris e podemos ver não apenas um monte de gays, mas bibas saltitantes, daquelas que usam salto alto e mini saia. Todas elas se reúnem no início (ou seria o fim) da Oxford Street, bem no ponto em que ela se encontra com a Elizabeth Street. Lá é a concentração pro desfile que começa às 21 horas. São vários carros temáticos estampando o orgulho gay e as “meninas” circulam muito faceiras (ninguém, de nenhum outro estado do Brasil conhece essa palavra e dizem que gaúcho inventa nome diferente pra todas as coisas), abraçadas, de mãos dadas, mandando tchauzinho para todos que assistem.

E não pensem que ninguém da importância para a Parade. Todos dão. Reúnem-se em festas, bebem até cair, dançam a noite toda, o dia seguinte inteiro e ainda alguns dias mais. Será que foi um brasileiro que triste por perder o carnaval (e gay, claro) resolveu criar o Mardi Gras? Hum, não sei o motivo da festa, vou tentar pesquisar, sei apenas que o povo gosta. Eu tentei ver, mas só tentei. Sai de casa às 19 horas quando as pessoas já estavam enlouquecidas e bêbadas andando pelas ruas. Andei mais de 30 minutos na multidão para achar um espacinho na Oxford onde eu pelo menos pudesse ficar parada. Mas quem disse que eu via algo? Vi nada. O pessoal aqui é esperto, eles chegam cedo, lá pela uma da tarde e vão munidos de bancos e caixas de frutas para garantir que enxergarão por cima de todas as cabeças e que ninguém enxergará por cima das deles.

Isso tudo foi no sábado, 5 de março. No domingo, quando eu estava em plena mudança fui perceber que minha nova morada fica bem no território gay. Aqui bem pertinho tem festa toda hora, mas a rua que moro é muito tranqüila e eu não escuto nunca o barulho da rua. Até acho bom, porque quando precisar voltar para casa tarde, a rua aqui terá sempre movimento - de homens, claro. Ah e de mãos dadas uns com os outros.

Consegui apenas algumas fotinhos – e foi com muito esforço – que coloquei aqui. E para os interessados, consegui meus primeiros dólares na Austrália montando pizzas num restaurante um pouco longe de casa. Mas tudo bem. O dono disse que segue ligando quando precisar. O dinheiro é pouco, mas vou torcer pra que ele precise!

quarta-feira, março 02, 2011

Vamos pra Turquia?



Tenho um colega da Turquia. Eu nunca me lembro o nome dele, apesar de conversar com ele todos os dias, no trem, quando volto pra casa. Logo vou me mudar e sinceramente vou sentir falta do bate papo com o colega turco. Gosto de ouvir sobre o país dele e de ver o quanto culturas podem ser diferentes e apesar disso, as pessoas ainda consigam interagir com respeito.

Adoro a indignação dele quando perguntamos por que eles gostam tanto de Kebab. E nós, os colegas de aula, no revezamos todo dia para garantir que alguém vai fazer de novo a mesma pergunta. “Kebab não é nada na Turquia cara, nada!” E ele ficou ainda mais pasmo quando contei que na Itália tem Kebab, assim como na França, na Espanha, na minha cidade e, acredito, em qualquer bairro do mundo se possa achar um Kebab. Não é culpa nossa achar que esta é a comida mais típica que eles têm. Os turcos é que saíram espelhando isso por ai.

Assim como não é culpa de ninguém achar que no Brasil só tem mulata, samba e futebol. Nós mesmos, brasileiros, tratamos de difundir essa idéia. Agora agüenta! Mas, voltando pra Turquia, “e nós não somos árabes”, gritaria o colega, eles não têm a religião muçulmana como obrigação, mas tem algumas regras para as mulheres. Elas, de forma alguma, podem ser tocadas por um homem antes do casamento. Nem na mão, no braço, ou em parte alguma. E o casamento é arranjado. Ele só precisa dizer aos pais que quer casar e eles fazem todo o trabalho. Tão fácil. Pula todo aquele sofrimento de conhecer alguém, ver se vai dar certo, adivinhar o que está pensando e por ai vai.

E quando perguntei se tinha emprego no restaurante onde ele trabalha (advinha de que? Kebab!) qual não foi o constrangimento do rapaz. Ele disse, educadamente, nós temos, mas não é para mulheres, é pesado, seria rude. Andando umas quadras mais adiante na volta pra casa ele me falou – “Na Turquia uma mulher até pode trabalhar e conseguir emprego, mas não é de bom tom que trabalhem”. Entendi. Apesar disso, ele me garantiu que o dia que casar vai ajudar a esposa dele nas tarefas domésticas. Mas, isso é porque ele é um rapaz viajado, que já abriu a cabeça para tantas outras idéias.


Olympic Park

Fui lá com os colegas de apartamento no último domingo. Tivemos que pegar dois trens e levamos mais de 30 minutos para chegar. É um pouco afastado do centro. O lugar é enorme, com bastante jardim, área de lazer, inúmeras paradas de ônibus, banheiros limpos, enfim uma estrutura bem legal.

Acontece que não sabíamos que naquele domingo estavam acontecendo dois eventos fechados no local. Isso foi chato, por tantos motivos que eu poderia fazer uma lista de 1 a 100, mas vou resumir, para não cansar ninguém. O motivo 1 foi que o estádio estava fechado para visitas. Todos os outros motivos giram em torno do tipo de evento que estava acontecendo. De um lado uma luta da UFC. Pra quem não sabe, como eu não sabia, é luta livre. Logo em frente a este ginásio, tinha um show de rock, daqueles que as pessoas se vestem de preto da cabeça aos pés: têm cabelos pretos, olhos e unhas pintados de preto. Eu estava usando cor de rosa – péssima escolha.

 O pior momento, no entanto, foi quando acabou a luta. Centenas, - ou seriam milhares? – de homens absurdamente grandes e fortes andando por todos os lados. Decidimos ir embora e vi pela primeira vez aqui em Sydney um trem lotado. Cheio de homens suados e gigantes. Foi bacana conhecer, mas porque não fui pra praia? Por quê?